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Tornado em Xanxerê, Comunidade, Geral, Social - 20 Abr 2018 07:01

“A gente não pode mudar o passado, mas podemos prevenir o futuro”

Defesa Civil de Xanxerê trabalha em conjunto com o Estado em plano municipal de contingência
Por: Aline Tonello
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“A gente não pode mudar o passado, mas podemos prevenir o futuro” Ações são coordenadas pela Defesa Civil por meio de centro integrado em Xanxerê (Fotos: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)

Até 2015, a Defesa Civil municipal contava com um plano de contingência que contemplava a resposta às situações de alagamentos, problemas recorrentes em Xanxerê. Até um simulado havia sido feito para treinar o poder público a como agir em uma situação extrema nesse sentido. Em caso de desabrigados e desalojados, essas pessoas seriam direcionadas ao ginásio municipal Ivo Sguissardi, no Bairro dos Esportes. Com a passagem do tornado em abril daquele ano e o principal abrigo provisório indo ao chão, ficou mais nítida a necessidade de um novo plano de contingência que não apenas contemplasse os problemas já identificados no município, mas que cobrisse todas as falhas da resposta ao pós-tornado e que preparasse inclusive a população para uma nova catástrofe natural.

O coordenador municipal da Defesa Civil, João Borba, explica que o órgão trabalha em parceria com a Secretaria de Estado de Defesa Civil, poder público municipal e a sociedade civil organizada para que o plano de contingência esteja pronto até o fim deste ano e as ações práticas e capacitações ocorram a partir de 2019.

- Estamos trabalhando no plano de contingência, que não vai evitar um próximo tornado, os grandes ventos, as catástrofes, mas vai preparar a população para quando acontecer, onde elas devem ir e o que fazer. Vai melhorar a reação pós-tornado e também trabalhar a parte da prevenção. Esse novo plano está sendo estruturado detalhadamente para contemplar todas as falhas que tivemos. Nós éramos preparados para uma situação de alagamento e tivemos um tornado, fenômeno totalmente diferente e que levou nosso local que serviria de abrigo. Agora trabalhamos na identificação de vários pontos para abrigar pessoas e que esses locais tenham infraestrutura até que as pessoas sejam realocadas. Então estamos escrevendo, precisamos da colaboração de muita gente, secretarias, poder público e da sociedade civil organizada. Nem sempre o poder público alcança onde a sociedade civil organizada tem o braço para alcançar. Então estamos indo devagar porque tem que ser pensado em tudo – explica Borba.

João Borba, coordenador municipal da Defesa Civil (Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)João Borba, coordenador municipal da Defesa Civil (Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)

A primeira parte do mapeamento de risco de Xanxerê já foi feita e a segunda etapa ocorre a partir de maio. Esse levantamento permite estudar a realidade do município, detectando áreas de alagamentos, deslizamentos e as pessoas que residem em locais de risco, por exemplo. A implantação de um Centro Integrado de Gestão de Riscos e Desastres (Cigerd) no município, às margens da BR-282 e da SC-480, também traz a Defesa Civil estadual para mais perto, possibilitando a realização de treinamentos com gestores. Além disso, o local funcionará como ponto para tomada de decisões imediatas envolvendo os órgãos competentes em caso de emergência.

- Agora temos o Cigerd e o Estado vem dando apoio na parte burocrática para que as leis sejam postas em prática o mais rápido possível, porque cada dia estamos mais próximos da próxima catástrofe. Talvez a nossa geração não vivencie outro, talvez sim, mas temos que estar preparados. Sabemos que a parte física de reconstrução do município está praticamente pronta, porém ainda vai demorar muito tempo para sair aquela imagem de destruição que ainda está viva na memória das pessoas – comenta Borba.

Prevenção e gerenciamento de crise

A lei federal 12.608/2012, que trata sobre o sistema de Defesa Civil Nacional, estabelece que os municípios brasileiros cumpram diversas obrigações, como mapeamento, implementação de sistema de alerta, além de estruturação e execução dos planos de contingência. Santa Catarina é o Estado que mais sofreu com desastres naturais nos últimos 20 anos, que tem a maior diversidade desses desastres no país e a maior perda per capita por quilômetro quadrado com isso. Como mais de 60% dos municípios são pequenos, muitos não têm estrutura de Defesa Civil para atender às exigências federais e trabalhar na prevenção e gestão de riscos e desastres.

- Pensando nisso, a Defesa Civil estadual trouxe as ferramentas de mapeamento, contratamos uma equipe técnica para isso, fizemos convênio com a Udesc para treinamento e capacitação para os municípios e fornecemos um sistema, que entrou em funcionamento em abril deste ano, onde eles devem fornecer os dados do plano de contingência, que contempla a identificação dos riscos, os recursos humanos, materiais e equipamentos para trabalhar, além de como vai funcionar o processo de abrigamento das pessoas em caso de desastre. Isso tudo tem que ficar pronto até o fim deste ano para que em 2019 a parte prática inicie – destaca o coordenador regional da Defesa Civil, Luciano Peri.

Luciano Peri, coordenador regional da Defesa Civil (Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)Luciano Peri, coordenador regional da Defesa Civil (Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)

Mas a melhoria na estruturação da Defesa Civil de Santa Catarina não ocorreu após o tornado em Xanxerê, como muita gente pensa. O marco para que se pensasse defesa civil de outra forma foi em 2008, em um dos maiores desastres naturais já registrados no país. Devido às fortes chuvas que tiveram início na madrugada do dia 22 de novembro daquele ano, 14 cidades decretaram situação de calamidade pública e outras 63 de emergência. Mais de 1,5 milhões de catarinenses foram atingidos pelas enchentes e desmoronamentos de terra, registrados, principalmente, no Médio Vale e Foz do Rio Itajaí Açu e Litoral Norte. Ao todo, 135 pessoas morreram em 16 municípios. Até hoje, duas continuam desaparecidas.

- A Defesa Civil era parte da Secretaria de Segurança Pública. Houve o desvinculamento e, em 2011 foi criada a Secretaria de Estado da Defesa Civil de Santa Catarina para trazer políticas públicas para prevenção, gestão e enfrentamento de desastres. Na época foi feito o plano diretor para a bacia do Rio Itajaí porque tinha sido identificado que era o principal problema do Estado, mas não era. Mais de 54% dos desastres são no Oeste, inclusive os de grande magnitude, então foi começado a perceber que o estado todo tem problema. Então em 2012 a gente começou a fazer o planejamento de defesa civil e que vai até 2029, uma política pública a longo prazo e para todo o Estado. Costumamos dizer que a gente não pode mudar o passado, mas podemos prevenir o futuro – explica Peri.

Oficina realizada em Xanxerê no ano passado sobre desenvolvimento dos planos de contingência (Foto: Arquivo/Amai)Oficina realizada em Xanxerê no ano passado sobre desenvolvimento dos planos de contingência (Foto: Arquivo/Amai)

Radares meteorológicos
Em 2015 foram deliberados padrões de defesa civil a nível mundial com o Marco de Sendai e viu-se a necessidade de que 100% do território catarinense fosse coberto por radares meteorológicos. Também foi definida a criação de centros integrados nas coordenadorias regionais para levar o planejamento mais próximo dos municípios.

- Definiu-se esses pontos e aí aconteceu o tornado. Nos ensinou que precisamos ter uma estrutura preparada na região para reunir pessoas para tomada de decisões nos desastres e gestão do risco. Confirmou que aquele levantamento de 100% de cobertura meteorológica era necessário. 2015 foi crucial para que a gente fizesse a estruturação do radar Oeste em Chapecó. A Defesa Civil já vinha atendendo e se preparando, mas 2015 foi um marco para que a gente sacramentasse o radar no oeste – diz o coordenador.

Com os radares em Lontras, Chapecó e Araranguá em pleno funcionamento e a inauguração dos 20 Cigerds nas regionais, a Defesa Civil de SC já deu um grande passo, mas os municípios e a população precisam fazer a sua parte também.

- A ação do município é a ação mais importante. O Estado vem se estruturando ao longo dos anos, mas o município tem um papel fundamental. O tornado é uma situação complicada. A gente consegue definir área de risco de inundação e deslizamento, por exemplo, mas de tornado não. Mas o município, com plano de contingência, com redução de riscos, vai fazer com que isso esteja dentro da situação de resposta. Eu sei que existe um encaminhamento do município para o plano e treinamento, o que me preocupa é saber qual é a capacitação das pessoas para quando receberem a informação. Hoje, estamos focados na parte de prevenção, preparação e capacitação da população e do processo todo de defesa civil, que é metade do ciclo, e também na resposta, mas estamos desprendendo muito esforço na parte de prevenção porque é mais fácil e mais barato, porque você quantifica a perda material, mas não consegue quantificar a perda de uma vida. E, se a gente conseguir salvar uma vida, já vai estar valendo, mas a gente vai conseguir salvar muito mais do que isso – finaliza Peri.

Radar meteorológico de Chapecó (Foto: Julio Cavalheiro/Secom)Radar meteorológico de Chapecó (Foto: Julio Cavalheiro/Secom)


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