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Bombeiros - 02 Jul 2018 11:47

Anjos de fardas: o dia a dia de quem tem como profissão salvar vidas

Por: Redação
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Anjos de fardas: o dia a dia de quem tem como profissão salvar vidas (Foto: Francieli Corrêa/Tudo Sobre Xanxerê)

Nesta segunda-feira (2), é comemorado o Dia Nacional do Bombeiro. Uma profissão que lida diretamente com a vida e a morte, com o alívio e o desespero. Empatia, medo e confiança são alguns dos sentimentos que descrevem a relação entre esses profissionais e as pessoas que são atendidas nas ocorrências.  A cada “Pode segurar a minha mão!” vinda de um bombeiro, está a certeza de que tem alguém ali que não vai medir esforços para ajudar quem está precisando.

Para muitos, eles são a última esperança, o socorro quando alguns minutos podem decidir o ir ou o ficar. Cada vez que alguém liga para a central, através do 193, e descreve o que está acontecendo, em segundos uma equipe sai para atender a ocorrência. Mesmo com todas as informações recebidas, a cada caso podem existir surpresas. Por isso, a preparação física e emocional da equipe é algo que supera o comum, algo que é esperado e encontrado apenas em verdadeiros heróis.

Como forma de homenagear esses profissionais, a reportagem do Tudo Sobre Xanxerê acompanhou, durante algumas horas, uma guarnição do 14º Batalhão de Bombeiros Militares, de Xanxerê, a fim de mostrar um pouco da rotina de quem luta pela vida todos os dias.


Emoção e finais felizes
A adrenalina de ter alguns segundos para agir e salvar uma vida é uma constante na rotina de quem é bombeiro. Em casos em que o tempo é essencial, uma orientação passada por telefone pode ajudar muito, como quando uma mãe liga desesperada porque o bebê está engasgado com leite materno ou outros tipos de alimentos e remédios.

- Era o meu dia de Cobom (central de atendimento), e a mãe estava em desespero, só que o ASU (Auto Socorro de Emergência) demorou 15 minutos para chegar lá. Demorou porque era interior, porque nossa resposta é sempre muito rápida. Mas naquele dia, se a gente não tivesse conseguido “dar a volta” quem sabe a criança tivesse ficado com alguma sequela ou nem tivesse sobrevivido. Por isso, são muito importantes as orientações por telefone, enquanto a ambulância se desloca. Eu tenho pegado bastante casos de engasgamento e, neste em específico, vimos que a criança tinha demorado um pouco para voltar. Quando ouvimos o choro foi muito emocionante, é nessas horas que dá uma satisfação muito grande pelo trabalho – descreveu a bombeira civil profissional (BCP) Silvia.

A Silvia havia atendido mais um caso de Ovace (quando as vias aéreas são obstruídas por algo e a pessoa não consegue respirar) em um bebê naquela manhã. Novamente ela instruiu a mãe sobre o que fazer e, quando os bombeiros chegaram no local, a criança já respirava normalmente. Essa foi uma das seis ocorrências atendidas pela guarnição que estava de plantão no último sábado (30).

BCP Silvia - há 12 anos na profissão (Foto:Francieli Corrêa/TSX)BCP Silvia - há 12 anos na profissão (Foto:Francieli Corrêa/TSX)

O sonho e a realização pessoal
- Quando eu entrei, eu entrei por um sonho. Mas foi um sonho que eu tive depois de adulto. Eu assisti a um filme que me inspirou a buscar a profissão. É uma coisa bacana de fazer, ajudar as pessoas e ainda ganhar por isso. A partir daquele momento em que eu vi o filme, decidi que era isso que eu queria fazer. Vi que era isso que eu queria para a minha vida – conta o cabo Vitorino, chefe de socorro da guarnição.

Foi ele quem nos recebeu e, muito solicito, apresentou o quartel e a guarnição, e orientou, juntamente com o cabo Picolloto, sobre como poderia ser conduzido o trabalho da reportagem de forma segura.

Vitorino explicou também que, atualmente, o salário do bombeiro tem se tornado atrativo, e que deixou de ser uma profissão buscada principalmente para realizar um sonho. Mesmo assim, o efetivo do Corpo de Bombeiros de Santa Catarina ainda é insuficiente, o que sobrecarrega as equipes, pois com ou sem pessoas suficientes, o quartel precisa estar operando e pronto para atender a cada vez que é chamado.

Cabo Vitorino - 14 anos na profissão (Foto: Francieli Corrêa/TSX)Cabo Vitorino - 14 anos na profissão (Foto: Francieli Corrêa/TSX)

“Vidas alheias e riquezas salvar!”
Para suprir parte das vagas nos quarteis do Estado, mais de 300 alunos participam do Curso de Formação de Soldados, que iniciou em março e encerra em novembro deste ano. Destes, 30 alunos estão no Centro de Treinamentos de Xanxerê. O aluno soldado Kichel é um deles, o jovem aspirante a bombeiro conta que desde criança pensava em seguir a profissão e que a ideia foi amadurecendo com o passar dos anos e se consolidou com a influência da convivência com a família da esposa, que é militar.

- Todo o garoto sonha em ser bombeiro quando crescer, e comigo não era diferente, mas eu desenvolvi esse gosto pela profissão há uns seis ou sete anos atrás. Outra coisa que influenciou na minha decisão é que a família da minha esposa é militar e através deles eu comecei a ter mais contato com esse mundo – contou o futuro bombeiro, que veio de Floripa para fazer o curso aqui em Xanxerê.

Aluno Soldado Kichel (Foto: Francieli Corrêa/TSX)Aluno Soldado Kichel (Foto: Francieli Corrêa/TSX)

Além de Kichel, outro aluno soldado fazia parte da guarnição naquele sábado, o Binz. Natural de Balneário Camboriú, na infância ele sonhava em seguir a carreira de surfista, mas devido há algumas lesões, hoje o esporte é só um hobby.  Ele, que já foi guarda vidas, pretende utilizar as habilidades dentro d’água e desenvoltura adquirida como atleta na profissão para ajudar as pessoas.

- Escolhi a profissão de bombeiro porque já fui guarda vidas em Balneário Camboriú e já realizei alguns salvamentos, e com isso acabei me identificando com a profissão. E também porque vivi um fato em minha vida, quando meu pai sofreu um acidente de jet ski e quase veio a falecer. Naquele momento eu me senti impotente, porque eu não estava preparado para aquele tipo de ocorrência. Vi que era a hora de buscar algo a mais, decidi buscar mais conhecimento como bombeiro, para conseguir salvar a vida das pessoas nessas situações – enfatizou o aluno soldado.

Aluno soldado Binz (Foto: Francieli Corrêa/TSX)Aluno soldado Binz (Foto: Francieli Corrêa/TSX)

Amor pela profissão
Algumas profissões começam a se encaminhar desde muito cedo, como um sonho idealizado por uma criança, e que vai tomando forma com o passar dos anos. Para muitos, ser bombeiro é algo que é planejado há bastante tempo, vem da inspiração despertada por alguém ou por algo. Para outros, surge como uma oportunidade de conhecer algo novo.

- Fiz o concurso porque um primo meu veio para cá para fazer e acabei passando. Não conhecia a profissão. A minha formação é na área de informática, não tem nada a ver com a profissão de bombeiro. Hoje eu exerço a função de TI aqui no quartel e sou responsável pela informática. O curso de formação é muito bom e eu me identifiquei com a profissão. O bombeiro não faz só uma coisa, a gente tem que aprender um pouco de tudo e se virar, a cada ocorrência é experiência diferente – conta o soldado Lucena.

Soldado Lucena - há 4 anos na profissão (Foto: Francieli Corrêa/TSX)Soldado Lucena - há 4 anos na profissão (Foto: Francieli Corrêa/TSX)

Lucena era quem dirigia o ASU no dia da reportagem, quando o alarme parava de tocar ele já estava preparado para partir para mais uma missão. No dia não foram registradas tantas ocorrências, comparando com outros. Dentro da ambulância, a caminho da ocorrência, às vezes o clima é de descontração. Segundo o bombeiro, é uma forma de manter a própria saúde mental e estar bem para ajudar o outro.

- Entre as guarnições a gente tenta manter momentos de descontração, de brincadeira, para manter a nossa própria qualidade de vida, porque se a gente ficar só pensando no outro lado e nas coisas que acontecem, o cara enlouquece. Querendo ou não, o nosso trabalho é só com as coisas ruins que acontecem para os outros – explicou Lucena.

Atendimentos
Quem estava à frente da equipe do ASU era o cabo Picolotto. Com 14 anos de experiência no Corpo de Bombeiros, ele conduziu a equipe para as ocorrências daquele dia. No dia a dia da profissão, em diversas situações, os bombeiros se expõem em benefício do próximo, para garantir a segurança e a continuidade da vida de pessoas desconhecidas. Essa é a função deles, uma função que envolve riscos e uma responsabilidade imensa. São pessoas que deixam suas famílias em casa, para ficar 24h à disposição de outros. E que mesmo com a jornada de trabalho, dão o melhor de si a cada ocorrência.

Talvez o que os torne tão especiais é sensibilidade e o cuidado no trato de pessoas estranhas, mas que no momento do atendimento veem no bombeiro a figura humana de que mais precisam. Empatia pode definir a relação deles para com os socorridos, quando a intenção é cessar a dor do próximo.

- Cada caso é diferente e nós precisamos estar preparados para tudo. Nem sempre o que é passado para a central é exatamente o que está acontecendo no local. É no local que temos a conhecemos real situação que teremos que enfrentar – conta Picolotto.

Quando retornam para a base, é hora de realizar a limpeza do carro e dos equipamentos. Deixar tudo pronto para a próxima ocorrência, que pode demorar a acontecer ou pode vir em minutos. Depois disso, é hora de registrar tudo do sistema, para manter a base de dados dos atendimentos.

Cabo Picolotto - 14 anos na profissão (Foto: Francieli Corrêa/TSX)Cabo Picolotto - 14 anos na profissão (Foto: Francieli Corrêa/TSX)

Coragem e força
- Crianças deixam a gente bem… Agente lembra de casa, dos filhos… Tivemos que tirar uma carga de compensado para tirar as crianças que estavam embaixo. Na hora a gente fez o trabalho, mas depois ficamos uns quantos dias pensando no fato. Ao ver a dor de um pai e de uma mãe ao perder os filhos, a gente se coloca no lugar. Nesse caso, ele perdeu a mulher e dois filhos no acidente. Foi o caso que mais me marcou nesses cinco anos - relembra o BCP Jefferson.

Diferentes histórias cruzam o caminho dos bombeiros todos os dias. Para eles, não há descanso. Depois de vestir a farda, a única certeza é que a cada chamado o desconhecido os espera. E, nessa missão de salvar vidas, muitas já foram perdidas em campo ou a caminho. É um risco para o qual eles estão preparados. Mas para o BCP Jefferson, uma forma de afastar o perigo é pensar no bem.

- A família sabe do risco, mas a gente não pensa nisso, nós pensamos em vir para o quartel e fazer um bom trabalho, ajudar o próximo. Estar à disposição a qualquer momento, a qualquer horário. É a isso que eu me disponho – finaliza.

BCP Jefferson - 5 anos na profissão (Foto: Francieli Corrêa/TSX)BCP Jefferson - 5 anos na profissão (Foto: Francieli Corrêa/TSX)

Vocação
Salvar. Quem já parou para pensar na importância do seu trabalho para a sociedade, para as pessoas que o cercam? Para alguns, isso dá um significado a mais na própria vida, sentir-se útil, pois a missão desses heróis é salvar vidas sempre que colocados em situações desesperadoras. Por vezes, surgem como a última esperança e, ao não conseguir atender um pedido já fora do alcance das mãos humanas, vem a realidade de que eles são humanos também. O BCP Luzzi respira fundo enquanto traz à lembrança um dos fatos que mais marcaram os seus 12 anos como bombeiro militar.

- Numa véspera de Natal, eu estava de serviço e pegamos um suicídio. Ao chegar ao local, veio o filho da vítima com ela no colo, pedindo para que nós fizéssemos o possível para salvar a mãe dele. Também por ser naquela data, foi algo que me marcou bastante – relembra.

BCP Luzzi - 12 anos na profissão (Foto Francieli Corrêa/TSX)BCP Luzzi - 12 anos na profissão (Foto Francieli Corrêa/TSX)

Para Luzzi, os casos que evolvem crianças e pessoas jovens são os que mais chocam. Os atendimentos às vitimas da combinação de álcool e direção, principalmente, são casos que, para o bombeiro, fazem refletir quanto ao fato de que um gesto de responsabilidade pode poupar vidas ceifadas tão cedo. Enquanto pessoas sonharem em salvar vidas, para cada chamado por socorro sempre haverá um bombeiro em prontidão para zelar pelo bem mais precioso que é vida.

- Desde criança é um sonho de todo mundo, e eu sempre quis ser bombeiro, mas tinha medo de muitas coisas o que, para mim, também foi uma superação. Pretendo ser bombeiro até enquanto eu puder ajudar as pessoas – encerra BCP Luzzi.

Confira mais registros AQUI.

Por Francieli Corrêa

 


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