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Bombeiros - 12 Fev 2019 15:31

“Nada me chocou tanto quanto aquele cenário”, diz bombeiro de Xanxerê que atuou em Brumadinho

Soldado Josclei e cão Iron devem voltar à cidade mineira no dia 19
Por: Francieli Corrêa
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“Nada me chocou tanto quanto aquele cenário”, diz bombeiro de Xanxerê que atuou em Brumadinho (Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)

No mesmo dia em que a barragem de Brumadinho (MG) se rompeu – 25 de janeiro - o 14º Batalhão de Bombeiros Militar (BBM) de Xanxerê colocou-se em prontidão para atuar no resgate às vítimas. Mas a liberação para o deslocamento da força-tarefa catarinense só veio quatro dias depois. Na primeira equipe enviada estava o soldado Josclei e seu parceiro de trabalho, o cão Iron, que por sete dias trabalharam em meio à lama que devastou a região e matou centenas de pessoas e animais. De volta a Xanxerê, Josclei conta que o cenário em Brumadinho é chocante e triste, mas que, ao mesmo tempo, a solidariedade de todos dá força a quem trabalha na busca pelos corpos e com a missão de dar um pouco de acalento às famílias e a cidade enlutada.

Bombeiro militar há quatro anos, Josclei Tracz conta que por diversas vezes ficou diante de situações complicadas, mas que nada o deixou tão chocado como o que ele viu em Brumadinho. Apesar dos cursos que o capacitaram para lidar com soterramento e da experiência na busca por pessoas desaparecidas que, aliás, ele e Iron sempre são solicitados, é difícil não se envolver e absorver a tristeza pela qual os moradores da cidade mineira passam neste momento.

- Apesar de ser novo no Corpo de Bombeiros, eu trabalhei bastante na ambulância e no caminhão e atendi várias ocorrências, como esses acidentes na rodovia. Mas nada me chocou tanto quanto aquele cenário. Encontrar a vítima, no segundo dia que eu estava lá, teve o lado bom, de felicidade por encontrar. Mas depois que o cão encontrou a gente mesmo desenterrou a vítima e colocou no saco e o helicóptero levou, fizemos todo o procedimento e aquilo ali me impactou bastante – relembra o bombeiro.

(Foto: Arquivo pessoal)(Foto: Arquivo pessoal)

O trabalho excepcional desenvolvido pelos bombeiros em Brumadinho conquistou não só o reconhecimento, mas a admiração de quem acompanha o desenrolar dos fatos que sucedem o rompimento da barragem da mineradora Vale. Um dos momentos mais emocionantes, que conseguiu arrancar lágrimas de Josclei foi uma carta de agradecimento deixada por um morador no para-brisa da viatura da equipe.

- Nos tocou muito, porque a grande maioria dos voluntários - senão todos - tinha pelo menos algum conhecido, familiar ou amigo que estava desaparecido e eles não deixavam se abalar com a dor da perda desses entes queridos, bem pelo contrário, procuravam nos ajudar, e essa ajuda que eles nos davam, dava força para a gente trabalhar. Ficaram a conhecimento da mídia as cartas e eu me lembro bem o dia em que eu cheguei do campo e encontrei essa carta no para-brisa da nossa viatura. Naquele dia eu realmente chorei, porque o cansaço não é apenas físico, mas psicológico também, o desgaste emocional é muito forte, e então aquela carta com algumas palavras ‘obrigado pelo serviço de vocês, força, continuem’, isso realmente nos motiva a voltar lá e, quem está lá, trabalhar e dar o máximo – relata Josclei.

Além do binômio de Xanxerê (dupla entre cão de resgate e tutor bombeiro militar), o 14º BBM também enviou o soldado Thiago Spader, que atua em Abelardo Luz. Ao todo, a primeira equipe cedida por Santa Catarina era composta por dez homens - especialistas em intervenções em áreas deslizadas - e quatro cães, que partiram para Brumadinho com um caminhão de ajuda humanitária, três viaturas tracionadas para locais de difícil acesso e equipamentos.

(Foto: Arquivo pessoal)(Foto: Arquivo pessoal)

A vontade de ajudar
O soldado conta que em Brumadinho os bombeiros ficam em um alojamento e recebem auxílio com alimentação e água, fornecidos pelos bombeiros de Minas Gerais e pela Vale. Além disso, muitos voluntários também ajudam como podem, inclusive lavando os uniformes dos bombeiros, que diante de uma rotina extensa de trabalho, pouco tempo têm para descansar.

Nos primeiros dias eles trabalharam o dia todo, começando as 4h da madrugada. Há uma pausa para descansarem e voltam no final da tarde para dar continuidade às buscas. Geralmente vão dormir por volta da meia-noite. 

- O amparo a gente tinha, tanto que levamos barracas, ração operacional e tudo, mas não precisamos utilizar nada disso, recebemos alimentação, alojamento, enfim, o que precisava a gente tinha lá, para chegar e poder trabalhar e dar o máximo. Ficamos muito felizes com o comentário do pessoal, de que a equipe de Santa Catarina realmente ajudou muito, tanto com o serviço de cães, homens bem preparados, tendo o curso de deslizamento, tendo preparação técnica para isso e, também, até equipamentos que levamos, coisas que eles não tinham e a gente tinha, um exemplo a moto bomba, para fazer o desmanche hidráulico, que fez bastante diferença -  conta o soldado.

Josclei parte novamente com destino a Brumadinho no dia 18 de fevereiro e deve chegar lá no dia 19. Apesar das recomendações do comando para que ele descanse, o bombeiro diz que pretende aproveitar os dias em Xanxerê para intensificar o treinamento e poder realizar um trabalho ainda melhor quando voltar a campo. Ainda segundo ele, não há data definida para as buscas serem encerradas.

- Queremos encontrar todas as vitimas, por mais que já se prevê que pode ser que não possamos encontrar todos, porque tem local que está com até 15 metros de lama, de difícil acesso. Em minha opinião, enquanto forem encontrados corpos, a esperança ainda existe. Acredito que vão vários dias ainda. Agora nós retornamos, eu o Iron e o cabo Romão, lá de Blumenau, fomos a primeira equipe que foi e agora vamos na quarta equipe que vai ir para começar a repetir as equipes de cães - destaca.

Nem todos os corpos são encontrados inteiros e, quanto mais os dias vão passando, a maioria do que é encontrado é fragmento.

- Mas a gente coleta aquele fragmento achado, vem o helicóptero e leva, tem a parte da Polícia Federal, que eles fazem a análise de DNA. Fora da zona quente [local onde estão concentradas as buscas] tem várias barraquinhas aonde as famílias vão para fazer a identificação através do exame de DNA. Eles têm um banco de dados e conforme são encontradas as vítimas é comparado com os familiares. E, com isso a cada dia que passa, vai reduzindo o número de vítimas desaparecidas – explica.

(Foto: Arquivo pessoal)(Foto: Arquivo pessoal)

Cão bombeiro
O Iron é um labrador de três anos de idade que está com Josclei desde que nasceu. Treinado e experiente, assim como os outros cães, tem desempenhado um papel fundamental na busca pelos corpos.  No segundo dia de trabalho ele conseguiu localizar o corpo de uma vítima, que foi desenterrada pelo parceiro Josclei e pôde ser devolvida à família.

O bombeiro militar explica que como Iron é um cão bombeiro, está treinado para estar diante desse tipo de ocorrência. Mesmo assim, a preocupação com o bem-estar do animal é constante para o tutor, que também é veterinário. Para aliviar o cansaço e cuidar da saúde de ambos, são realizadas várias pausas para descansar e se hidratar.

- Cabe a eu ver até onde ele aguenta e cuidar do bem-estar dele. Ele é bombeiro igual a nós, ele recebeu um treinamento para isso – diz o soldado.

Na segunda-feira (11), já em Xanxerê, Iron foi levado a um veterinário. Segundo Josclei, o cão está bem e estará pronto para retornar a Minas Gerais na próxima semana. A partir de agora, conforme o bombeiro, o trabalho dos cães se torna cada vez mais fundamental devido ao seu olfato apurado, visto que os corpos que estavam na superfície já foram encontrados e os restantes podem estar há vários metros de profundidade.

(Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)(Foto: Aline Tonello/Tudo Sobre Xanxerê)

Números atualizados
De acordo com a lista divulgada pela Defesa Civil de Minas Gerais, no início da tarde de segunda-feira (11), o número de vítimas do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, era de 165 corpos resgatados pelas buscas - sendo 160 já identificados – 155 pessoas ainda desaparecidas e outras 393 localizadas.

(Foto: Arquivo pessoal)(Foto: Arquivo pessoal)

(Foto: Arquivo pessoal)(Foto: Arquivo pessoal)

 


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